Análise de Wild West vol. 2: Wild Bill.

Ele há escritores que, após alcançarem a fama com um primeiro livro, passam a vida a tentarem alcançar novo sucesso.

Ele há pintores que preferem os grandes frescos e outros cuja dedicação vai para o retrato intimista.

E o que tem isto a ver com o segundo volume de Wild West que a Ala dos Livros acaba de lançar (cf. previews e apresentação da edição portuguesa aqui)? Tudo!

Thierry Gloris (argumento) e Jacques Lamontagne (desenho) já tinham mostrado do que eram capazes no primeiro volume de Wild West, a sua série western hiper-realista (cf. o artigo A Culpa é de Hollywood!).

Agora, não só confirmam os créditos pelo sucesso alcançado anteriormente como, a pretexto de traçaram o retrato biográfico de duas figuras lendárias do “Velho Oeste” — Calamity Jane e Wild Bill Hickok —, pintam um enorme fresco que representa o nascimento de uma nação.

Vamos à história!

O Inverno não foi clemente naquela parte de Omaha, no território do Nebraska. E embora o estaleiro esteja atolado de neve, os trabalhos não podem parar na nova linha de caminhos de ferro da Union Pacific.

Um estranho à obra faz indagações acerca de um certo Bart O’Malley. É recebido por três rufiões mal-encarados que o informam que O’Malley é o seu patrão, que está muito ocupado e que o melhor que o estranho tem a fazer é dar meia-volta e seguir caminho.

Mas o estranho é James Hickok, caçador de prémios e com sede de vingança. E os três cowboys rapidamente descobrem que ninguém se atravessa entre Wild Bill Hickok e a sua presa. No meio da ponte em construção, dá-se o confronto. Os três homens disparam primeiro, mas o revolver de Wild Bill cospe fogo certeiro, neutralizando-os. O’Malley, emboscado no piso inferior da ponte, é caçado, desarmado e acaba por revelar o nome do seu cúmplice, um certo Jacob Moore.

Dias depois, O’Malley, também conhecido como “Snake”, é levado para a cidade de Sprigfield, no Illinois, julgado sumariamente e acusado de violação, pilhagens e roubos. Momentos depois, o seu corpo jaz suspenso na ponta da corda que lhe aperta o pescoço e lhe sufoca o último suspiro. Na multidão que assiste ao espectáculo encontra-se uma jovem de olhar vazio, Ingrid Lake.

Numa das suas deambulações, Wild Bill tinha encontrado a jovem no deserto, quase enlouquecida e agarrada ao corpo já em decomposição do seu irmão. Só vários dias passados a jovem conseguiu retomar a lucidez e a fala, acabando por relatar a Wild Bill a chacina da sua família às mãos de um bando de “desperados”. Após esse momento, Wild Bill juro-lhe não descansar enquanto não caçasse todo o grupo de criminosos do qual “Snake” fazia parte.

Ao mesmo tempo, Martha Cannary (muito em breve Calamity Jane), escondendo o seu género feminino, alista-se no exército sob o nome falso de Martin Jane. Fazer parte dos Túnicas Azuis naquela parte do Wyoming não é tarefa fácil; o quotidiano é extenuante, repetitivo e frustrante. Mas o rumo da sua vida está prestes a mudar mais uma vez, e desta feita pelas mãos de uma tribo índia dos Lakotas.

No primeiro volume de Wild West, a narrativa de Thierry Gloris conta-nos com realismo (por vezes, ficcionado) a história de Martha Cannary, mais tarde conhecida como Calamity Jane, e, em segundo plano, apresenta-nos outra figura lendária do Faroeste, Wild Bill Hickok. Agora, é este que dá o título ao segundo álbum, mas nem por isso tira protagonismo a Martha Cannary.

Em termos narrativos, Thierry Gloris mantém o processo de nos contar em paralelo as vidas das duas figuras que, por vezes, se vão cruzando. São os tais retratos intimistas, de grande intensidade psicológica, que nos permitem ver para lá das figuras heroicas que deambulavam pela “última fronteira”. Seja do destino trágico de Martha no primeiro volume ou do que faz mexer o exuberante caçador de prémios no segundo volume.

Ao longo da história, Gloris vai tornando a narrativa mais complexa, deixando várias pistas para o que poderá ser o desenvolvimento do argumento do próximo álbum.

Mas Thierry Gloris não se limita a traçar-nos o retrato dos dois personagens e de mais uns quantos outros. Wild West é um fresco monumental acerca do que se convencionou chamar de “civilização” e acerca do nascimento de uma nação.

Por alguma razão se chama ao Oeste Longínquo (ou Far West) o Oeste Selvagem (ou Wild West). Territórios pouco ou nada explorados pelo homem branco, habitados esparsamente por tribos índias e que, 100 anos após a Independência, estão ainda por povoar e por serem verdadeiramente reclamados pela jovem Nação. E isso só é possível com a chegada da civilização aos territórios selvagens.

Uma chegada amarga, como vai mostrando Thierry Gloris para os leitores mais atentos.

Desde logo, o “cavalo de ferro” que rasga com os seus carris a pacatez até então impoluta das imensas pradarias. É o comboio que traz consigo mais indesejáveis do que honestos colonos, mais doenças do que boas condições de vida, mais mão de obra à beira da escravatura (como os chineses e as prostitutas) do que empregos para os colonos.

Mas com o comboio vem também a ganância e a loucura. Dão-se as grandes chacinas das manadas de bisontes que pareciam infinitas. As tribos índias veem os seus territórios de caça devastados e ocupados; a sua fonte primária de alimento deixada a apodrecer na pradaria. O homem branco despreza-os; os índios odeiam-no. Os massacres sucedem-se de ambos os lados. Estala aquela que ficará conhecida como a Guerra de Nuvem Vermelha (1866-1868).

A chegada da civilização mantém-se inexorável. Brancos pouco escrupulosos fornecem aos índios armas de fogo e um incentivo adicional para libertar as fúrias – a “água de fogo”. Cada vez mais, colonos vão aparecendo para ocupar o que até então eram terras livres apenas sob o jugo da Natureza.

E se a narrativa de Thierry Gloris não omite nem adocica os piores momentos da “conquista do Oeste”, nem por isso deixa de lhe conferir uma profunda dimensão social e humana apaixonante, nomeadamente no que aos usos e costumes indígenas diz respeito, bem como ao quotidiano nos famosos fortes da Cavalaria.

Jacques Lamontagne também não deixa os créditos por mãos alheias e dá o tom próprio às palavras de Thierry Gloris.

Se no primeiro álbum a acção se passava num meio opressivo, quase sempre à porta fechada, sombrio e repugnante, agora abre-se para os grandes espaços, para a luminosidade que, paradoxalmente, parece não iluminar o espírito nem dos protagonistas nem dos acontecimentos.

A paleta de Lamontagne é agora formada por cores mais claras e ambiências mais quentes, pontilhando, aqui e ali, as cores frias que refletem o negrume da alma. Aliás, é precisamente assim que abre este álbum, com a ambiência glaciar e invernal do Nebraska que contrasta com as planícies verdejantes e plenas de luz do Wyoming.

Jacques Lamontagne oferece-nos de novo pranchas ricas em detalhe. O estilo é preciso e muito realista, mergulhando-nos num universo gráfico sublime. E é também cinematográfico, como é demonstrado por certas cenas que nos remetem claramente para a 7.ª Arte e para filmes como Danças com Lobos ou Aconteceu no Oeste.

E se Gloris tem todo o cuidado na narrativa acerca da vida dos índios Lakota, Lamontagne tem todo o cuidado em recriá-la visualmente. Mais uma vez, o realismo é a palavra de ordem e o cuidado impresso ao traço reflecte-se tanto no que um “bravo” usa debaixo da curta túnica, como nos toucados, nas armas, nas pinturas de guerra ou nos interiores dos teepees.

Em suma, a história deste primeiro díptico forma um todo coerente e bem construído, onde a narrativa acerca dos protagonistas evolui a par com o avanço civilizacional.

O retrato geral que os autores nos dão acerca deste período é sombrio e realista. Ninguém é propriamente inocente e muitos são aqueles que têm as mãos sujas, mas são apenas as acções inconsequentes de alguns crápulas que tendem a precipitar os acontecimentos.

A palavra e o desenho tornam palpável este ambiente sombrio no qual o perigo pode revestir-se das mais diversas aparências… Até na forma de uma modesta pepita com a qual termina este álbum.

Calamity Jane e Wild Bill Hickok: o duo através do qual vamos reviver os piores e os grandes momentos de um Oeste Selvagem que está em pleno processo de ser civilizado e no qual os brancos não desempenharam o melhor papel.

Um grande fresco; um retrato intimista. Um Novo Mundo de uma violência mortal e sem piedade. O nascimento de uma nação. Uma série de sucesso!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.