Análise de Alix Senator vol. 3: A Conjura das Rapaces.

Nunca é demais lembrar! Foi há 74 anos que Jacques Martin criou Alix, o jovem gaulês romanizado que vive mil e uma aventuras, a maior parte delas a pedido de Júlio César.

E foi já há 10 anos que a Casterman, mantendo a cadência de publicação na série original, criou Alix Senator, passada cronologicamente trinta anos mais tarde.

A memória do assassinato de César nos idos de Março é longínqua. Agora impera Augusto, primus imperator. Mas os bastidores do poder em Roma são tudo menos pacíficos. Após os estranhos e horríveis assassinatos do general Agripa e do triúnviro Lépido (ver artigo Veni vidi vici), César Augusto envia o Senador Alix ao Egipto numa missão secreta. Mas o que este descobre nas margens férteis do Nilo e num recôndito e secreto local no deserto (ver artigo César não está morto!) fá-lo-á regressar a Roma com a máxima urgência.

O terceiro volume da série Alix Senator, recentemente lançado em Portugal pela Gradiva (cf. apresentação e previews do volume nacional aqui), estava planeado para ser não só o fecho de uma trilogia como o fim da mini-série. Mas o sucesso foi tal que, à data deste artigo, são já 13 os volumes publicados e sempre com autoria da dupla Valérie Mangin (a latinista e historiadora responsável pelos argumentos) e Thierry Démarez (desenho).

Acompanhemos então A Conjura das Rapaces, o fecho de uma trilogia extraordinária…

Vamos à história!

Roma, ano 12 a. C.. Bosque das Fúrias.

A luz das tochas lança uma claridade enganadora na noite sombria que envolve o bosque. Um grupo de homens, com os rostos velados por máscaras que representam aves de rapina, reúne-se clandestinamente numa clareira.

Um deles levanta a sua máscara. É o primeiro Áugure que, depois de ver o (seu) Templo de Júpiter profanado pelo imperador Augusto e o seu irmão Rufo assassinado no Egipto, se vê agora na contingência de viver escondido em parte incerta de Roma. Perante a estranha assembleia, ele toma a palavra. Animado por um enorme desejo de vingança e furioso por ter de viver escondido na sua própria cidade, todo o seu discurso visa a eliminação de Augusto, a quem apelida de tirano e usurpador. E a fúria do velho Áugure só será aplacada quando o lugar de Augusto for ocupado pelo filho de Júlio César, Ptolemeu César ou Cesarião, que todos julgavam há muito desaparecido.

Entretanto, o prefeito Barbarus, regressado a Roma, é recebido pelo imperador e dá-lhe a notícia da morte do senador Alix. Mas, para seu espanto, Augusto e sua mulher parecem divertir-se com a notícia. Também regressado do Egipto, Alix põe fim à encenação e irrompe pela sala. Antes já ele tinha informado o imperador acerca da maneira indolente de Barbarus gerir a sua província e da sua passividade face ao complot do general Quinto Rufo. César Augusto dá um ano a Barbarus para reformar a sua administração no Egipto ou optar pelo suicídio forçado.

E ao mesmo tempo, sem que Alix saiba, Augusto manda invadir a sua villa e capturar Enak, considerado por ele um traidor e inimigo de Roma pelo apoio dado a Cleópatra quinze anos atrás. Para Augusto, Enak só merece um destino: a morte!

Perante o desenrolar dos acontecimentos, o dilema atormenta Alix: manter-se fiel ao Imperador ou ajudar Cesarião a tomar Roma, podendo assim salvar o seu amigo Enak?

Neste terceiro álbum da série Alix Senator, todos os acontecimentos dos dois volumes precedentes confluem em direcção ao grande final. E que final!

O trabalho da argumentista Valérie Mangin e do desenhador Thierry Démarez continua exemplar.

A narrativa inspirada de Mangin volta a encontrar o terreno propício à sua verve, bem como à sua formação de latinista e historiadora. E tal como já o tinha feito nos álbuns anteriores, a sua trama está repleta de referências reais que casam na perfeição com as muitas reviravoltas que enriquecem a narrativa e com as paixões humanas que se entrechocam e fazem avançar a acção.

Depois da aventura no Egipto, Alix regressa a Roma e ao seu ambiente impiedoso. Um grupo autodenominado de “Rapaces” conspira contra César Augusto, planeia o seu assassinato pretendendo substitui-lo por Cesarião, o filho de Júlio César.

Todos estes personagens são reais, mesmo Cesarião que, durante anos, fez pairar o seu espectro sobre Roma, um pouco ao estilo do nosso D. Sebastião ou do Rei Artur. A este mito do Eterno Retorno, Mangin junta depois a trama ficcional, enriquecendo-a, contudo, com uma miríade de referências históricas e de reconstituições abrilhantadas pela excelência do traço de Thierry Démarez.

E assim, a título de exemplo, temos o ritual do sacrifício do boi ao deus Apolo com a subsequente leitura do futuro nas entranhas do animal…

… Os famosos grafites romanos que ornavam paredes e muros exteriores das casas romanas, mostrando estados de espírito, ou a cuidadosa reconstituição de um simples jantar privado…

… As várias cenas no Senado, onde tanto se assiste à discussão acerca de como a falta de boas colheitas de cereais no Egipto pode levar a motins populares em Roma, como se assiste também a golpes de teatro político pelos quais senador ou imperador podem cair em desgraça de um momento para o outro…

… Ou ainda pequenas referências às expedições “científicas” que os romanos levavam a cabo nas províncias do Império ou mesmo à literatura, no caso concreto, à leitura de Édipo Rei de Sófocles.

Por fim, Mangin, ao abandonar a densidade textual dos Alix de Jacques Martin, privilegiando um estilo mais directo, consegue criar uma narrativa mais dinâmica e diálogos mais reais.

Como já se disse em artigos anteriores, também Thierry Démarez se afasta do inconfundível estilo “linha clara” de Jacques Martin, optando por um traço mais realista que, álbum após álbum tem vindo a aprimorar.

É inequívoca a sua capacidade de recriar o ambiente arquitectónico da Roma imperial, seja com panorâmicas do Palatino e do Circo Máximo ou do Teatro de Pompeu Magno, todos com uma cuidada reconstituição histórica.

Mas também na parte ficcional, como é o caso da casa de Alix, o rigor histórico está presente. E assim vemos uma domus típica de um patrício, com o tradicional átrio e respectivo complúvio e implúvio ao redor dos quais se organizam as restantes divisões da casa.

Démarez é também mestre na reconstituição de ambientes públicos onde a encenação é um dos seus pontos fortes. E assim, mergulhamos na azafama de uma rua da Roma Antiga através de um passeio em liteira…

… Ou no acto social de extrema importância que era a frequência dos banhos públicos.

Sempre superiormente inspirado, Démarez oferece-nos esplêndidos planos diurnos e nocturnos, sendo que as cenas inicias no Bosque das Fúrias são particularmente cativantes.

Muitas das suas vinhetas são apresentadas com ângulos de visão difíceis e trabalhosos de executar…

 … E as sequências no Senado são de um realismo deslumbrante. E aqui está bem presente o seu rigor com os elementos arquitectónicos, a sua teatralidade na encenação e a sua capacidade de imprimir expressividade ao rosto humano.

A Conjura das Rapaces é um álbum a todos os títulos justificativo de como uma dupla de qualidade pode sustentar uma série “derivada” e apresentá-la como 100% original. Argumento, desenho, rigor histórico, inventividade e credibilidade da narrativa, a intriga, a paleta de cores, tudo concorre para a excelência. E quando pensamos que a trama terminou, é-nos oferecida aquela prancha final que deixa adivinhar a complexificação da próxima intriga.

Em definitivo, Alix Senator é uma série a não perder!

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.