Análise de Monstros, de Barry Windsor-Smith

Os fugazes vislumbres de felicidade… as efémeras centelhas de alegria… de pouco servem quando todos, mas mesmo todos, são miseráveis. Qual a diferença entre o vilão miserável e o bom desafortunado e injustiçado que também não passa de um miserável? Qual a diferença entre a vida miserável de uma mulher, levada pelo destino à prostituição e à morte pela doença que lhe corroeu as entranhas, e a vida de sua filha que nunca conheceu mãe nem pai e que leva uma existência docemente enganadora, escondida das misérias que a perseguem? As diferenças são nenhumas! E é essa a forte mensagem que Victor Hugo nos entrega no seu célebre romance Os Miseráveis: todos são miseráveis! Ricos ou pobres, bonitos ou feios, maus ou bons, velhos ou jovens… todos são miseráveis!

De certo modo, é também essa a mensagem que Barry Windsor-Smith no faz chegar na sua magnum opus que intitulou de Monstros (cf. apresentação e previews do volume nacional aqui) e que a G. Floy publicou recentemente.

Windsor-Smith é mundialmente famoso essencialmente por três razões. Cronologicamente, primeiro pela transposição para o universo da 9.ª Arte do personagem de Robert E. Howard, Conan o Bárbaro, de quem desenhou a maior parte das aventuras compreendidas entre o n.º 1 e o n.º 24 (1970-1973) do comic book da Marvel Comics com o mesmo nome. Segundo porque o seu estilo gráfico é único e por todos reconhecido pelo detalhe e beleza, lembrando o estilo dos pintores pré-rafaelitas. Terceiro porque foi ele que criou e desenhou em 1991, também para a Marvel Comics, a incontornável história de Wolverine, Weapon X. Até há dezasseis anos, Windsor-Smith foi-nos brindando com a sua excelência artística em variados projectos de umas quantas editoras norte-americanas. Mas desde 2005 que não publicava nada. Na verdade, preparava a obra em que trabalhava há 35 anos e que, originalmente, deveria ser uma história do Incrível Hulk. Ainda bem que não foi! Só assim temos agora acesso às 368 páginas de Monstros.

Vamos à história!

11 de Junho de 1949. Cidade de Providence no Ohio. Residência dos Bailey. O sol ameno do começo de Verão banha o jardim dos Bailey. Janet procura pelo filho. À sua frente, a bicicleta do rapaz jaz retorcida no relvado. Janet dirige-se para o barracão dos fundos. O filho deve ter-se escondido lá. Mas a cena que se lhe depara irá povoar-lhe os pesadelos até ao fim dos seus dias: na penumbra do barracão, o seu marido Tom agarra Bobby pelo colarinho. O rapazinho tem parte do rosto desfeito. Os punhos cerrados do pai ainda pingam o sangue de Bobby. Janet pega o filho ao colo e foge desesperada. O marido, enlouquecido, gesticula freneticamente ao mesmo tempo que grita uma algaraviada incompreensível em alemão. Janet corre pelo jardim. “Socorro! Socorro!” Tropeça na bicicleta. O marido aproxima-se. Os gritos continuam. Janet está encurralada. Protege Bobby com o próprio corpo. Grita uma última vez: “Monstro! És um Monstro!”

22 de Abril de 1964. Los Angeles, Califórnia. Centro de recrutamento do exército.

O Sargento McFarland acolhe um jovem de nome Bobby Bailey de 23 anos de idade. O rapaz usa uns óculos de sol que lhe escondem os olhos. Diz que quer seguir as passadas do pai e alistar-se no exército. Mas quando chega o momento de fornecer os seus dados pessoais ao Sargento, Bobby não apresenta certidão de nascimento, número da Segurança Social ou qualquer diploma escolar. Mais, não se recorda do último emprego que teve ou o que nele fazia e parece não ter morada fixa. Quando McFarland fica a saber que o rapaz não tem mãe nem pai, mulher ou filhos, percebe que Bobby é o candidato ideal para participar no ultra-secreto Projecto Prometeu.

Pela calada da noite, os homens do Major Cortland Roth vão buscar Bobby ao centro de recrutamento e levam-no ao helicóptero do oficial. Roth, com cara de poucos amigos e uma postura a condizer, interroga Bobby. Ordena-lhe que tire os óculos de sol. “Tira-me a merda dos óculos!” “O que te aconteceu ao olho, Bailey?” “N-Não tenho olho esquerdo, Senhor. Isso desqualifica-me, Major?” “Noutras circunstâncias, sim. Mas agora já viste demais…” E o helicóptero desaparece no céu escuro.

23 de Abril de 1964. Los Angeles, Califórnia. Residência dos McFarland.

O Sargento McFarland acorda de um pesadelo a meio da noite. Um pesadelo monstruoso no qual Bobby é selvaticamente torturado. Bobby, o rapaz que ele enviou para o Projecto Prometeu.

26 de Abril de 1964. Forte Sherman, quartel-general do Projecto Prometeu. Baja, Califórnia. Bobby jaz inanimado numa marquesa sofisticada. Debruçados sobre ele estão dois técnicos. Para eles, se aquela tecnologia nazi tivesse sido usada durante a guerra, a Alemanha de Hitler teria dominado o mundo. O Major Roth pergunta-lhes se a falta do olho esquerdo poderá ser um problema para a experiência. Não só lhe dizem que não, como lhe asseguram que a cavidade vazia é um excelente ponto de entrada. Preparam-se para inserir a agulha. O Major faz questão de assistir. O mundo poderá estar prestes a mudar…

No mínimo, a nova obra de Barry Windsor-Smith é adjectivável de ambiciosa. Quer ao nível da narrativa quer ao nível do desenho, Monstros vai muito além de uma história de “super-heróis” bem contada. Decerto que à sua volta correrá muita tinta, algumas teses se escreverão e milhentas críticas ocuparão espaço em vários suportes informativos. Mas será sempre difícil dizer tudo, mesmo que cada um a leia múltiplas vezes. Tentemos então dizer o máximo sem dizer tudo e, sobretudo, deixando a profundidade analítica para os académicos. Desde logo, como já disse, Monstros vai muito além de uma história de “super-heróis”. Aliás, não é uma história de super-heróis, ainda que o protagonista tenha super-poderes e dois ou três personagens sejam bafejados com predicados fora do vulgar. E embora o universo dos super-heróis não seja estranho a Windsor-Smith (ou por isso mesmo), não esperem ver alguém a voar, a correr a super-velocidade ou a usar visão de raio-x. As capas, o spandex e o kevlar estão banidos deste livro. Mas nem por isso Windsor-Smith deixa de homenagear o mundo dos comics e uma das suas inspirações: Jack Kirby. Desde logo, aquilo que é injectado em Bobby faz lembrar o soro administrado a Steve Rogers e que o transforma no supersoldado Capitão América. Mas desenganem-se os que esperam ver o mesmo resultado em Bobby. Horrivelmente torturado, injectado com uma mistela vinda dos confins de um sórdido laboratório nazi vinte anos antes, Bobby acaba com uma aparência digna de um cruzamento entre o Hulk e o monstro de Frankenstein. É uma piscadela de olho de Windsor-Smith à sua própria história de 1991 onde conta a origem de Wolverine como Arma X (Weapon X).

Mas as semelhanças com um comic book típico terminam aqui. Desde a complexidade narrativa até a alguns dos temas abordados, dificilmente alguma coisa seria aprovada por um dos editores da Marvel ou da DC. E se alguém tem dúvidas, basta ver a cena inicial em toda a sua brutalidade e as várias camadas com as quais é tratada pelo autor. O óbvio: um pai tresloucado espanca violentamente o filho; a mãe tenta salvá-lo. É assim introduzido na história o tema da violência doméstica e do abuso infantil. Mas para que o leitor não veja as primeiras páginas do livro como “mais” uma cena de espancamento, Windsor-Smith tenta levar-nos ao limite da sanidade: enquanto a mãe grita de aflição em balões cada vez maiores, o pai, possuído por uma qualquer loucura do leitor ainda desconhecida, grita tão mais alto que as suas palavras não cabem nos balões e são ilegíveis naquele corpo de letra gótico gigante. Ao mesmo tempo, a criança de rosto esfacelado e ensanguentado, parece apenas estar a dormir, serenamente, nos braços da mãe.

E isto é só o que se vê, sem estarmos aqui a falar do estilo, do traço, do jogo de luzes, etc. É este o indicador que nos remete para uma leitura muito cuidadosa de cada cena, não vá escapar-nos alguma camada. O mesmo se pode dizer da obra como um todo. Sendo o ponto de partida a violência doméstica, são as suas consequências que servem de motor à narrativa. Camada após camada, as inúmeras analepses que fintam qualquer cronologia, transformam Monstros num puzzle que só conseguimos compreender na sua totalidade no virar da derradeira página. É então que tudo o que vai fazendo sentido acaba, em definitivo, por fazer sentido.

A infância difícil de Bobby; a sua entrada para um programa experimental do exército e a sua transformação num… monstro. A doce e terna mãe de Bobby, também ela vítima de violência doméstica, sonhando com uma outra vida, talvez com outro homem e por vezes menorizando os problemas do filho… também ela um (doce) monstro! O pai de Bobby, enviado para a frente de batalha na Segunda Guerra Mundial e apanhado na loucura de uma experiência nazi que o faz regressar a casa como um… monstro! O Sargento McFarland que, consumindo-se pelo remorso, não hesitou em enviar Bobby para o inferno do Projecto Prometeu… mais um monstro! Mas ao longo da narrativa existe outro monstro, aquele que nos desconcerta por não estarmos à sua espera, aquele que aparece sob a capa de um porto de abrigo: o lar, doce lar! A segurança da nossa casa, o nosso castelo vai sendo subliminarmente destruído pelo autor, como que nos dizendo que não temos para onde fugir. Dentro de casa, um quadro parece confortar-nos com a expressão “lar, doce lar”. Mais à frente, um camião de mudanças envolvido numa perseguição brutal, arvora edilicamente o slogan “American Homes”. E a casa de Bobby e dos seus pais, acolhedora, com os seus tapetes, cortinados, lareira acesa, banhada por luz difusa que passa pelas janelas ou é projectada por pequenos candeeiros, e que esconde as cenas mais sórdidas de Monstros. A casa de Monstros é um lar, um país, o planeta, a fervilhar de misérias, de monstruosidades – o terror mascarado de aconchego.

Pois é! Nada na narrativa de Barry Windsor-Smith é simples. E, no entanto, é facilmente perceptível. Outro bom exemplo é a voz contemplativa de Janet (a mãe de Bobby). Entre cenas, vamos podendo ler as cartas apaixonadas e preocupadas que vai escrevendo ao marido enquanto este está algures perdido no teatro de guerra europeu. E é-nos permitido espreitar algumas páginas do seu diário, terno e inocente ao princípio, tornando-se, aos poucos, amargo e desesperado à medida que a consciência dos abusos que sofre às mãos do marido deixam de poder passar por amor. Mas também o marido, o monstro dos monstros, é vítima. Marido carinhoso e apaixonado, pai dedicado, é apanhado na ponta final da Segunda Guerra Mundial pela origem sinistra do Projecto Prometeu envolto na ciência Nazi e na loucura maquiavélica de um personagem misterioso que projectará as suas raízes para o futuro. Aparentemente, o destino do pai será o destino do filho… macabro, violento, pleno de horror.

Por fim, a loucura Nazi a par da loucura de instituições lunáticas. Se os nazis surgem como monstros desejosos de criar monstros com a sua ideologia de raça superior e os seus programas de pesquisa genética, o exército dos EUA não lhes fica atrás.

E se a trama é intrincada, a narrativa superior e a história cativante, que dizer da arte de Windsor-Smith? Quem conhece o artista não se sentirá defraudado. Os anos não lhe diminuíram a inteligência e beleza estética do traço. Mas para quem nunca se cruzou com os trabalhos do autor, prepare-se para uma obra de excelência onde, apesar de todo o horror, o desenho é extraordinariamente delicado, detalhado e meticuloso. Os personagens, como acima se disse, são traçados ao bom estilo dos pintores pré-rafaelitas. E a ausência de cor apenas coloca em destaque a qualidade artística de Widsor-Smith, mestre da gravura e manipulador exímio dos contrastes entre luz e escuridão.

No seu âmago, Monstros é um drama familiar terno e envolvente, revestido de apenas duas camadas de fantasia: os cientistas loucos nazis e o subenredo com fantasmas e poderes psíquicos. O ritmo é frequentemente meditativo e mostra interesse igual nas relações familiares e em superpoderes.

A história dura, densa, violenta e aterrorizadora é tão profundamente triste quanto é bela e poética. E, sobretudo, é estranhamente doce.

Se em todos podemos ver monstros… se, de uma maneira ou de outra, todos são miseráveis… nem por isso um ténue fio de luz deixa de existir sempre como o farol que nos pode afastar das rochas batidas pelas ondas e nos encaminhar para destinos que ajudamos a traçar.

Monstros é tão essencial para apreciadores de boa literatura como para amantes da 9.ª Arte.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.