Os Covidiotas, Segunda Vaga!

Há uns tempos que não aparecia!

Conhecemos-lhe a mulher; conhecemos-lhe a filha; conhecemos-lhe uma segunda mulher e até a segunda sogra; conhecemos-lhe uma fácies e conhecemos-lhe ainda outra. Mas, na realidade não lhe conhecemos nada!

Ele é o homem das mil caras. Aquele a quem todos recorrem… Pelo telefone. Não sabemos se tem bigode, um furúnculo na ponta do nariz ou se é um adónis.

Mais esquivo que o Batman, mais assertivo que o Super-Homem, mais prestável que o Homem-Aranha, dele só conhecemos o nome… Delmiro!

Pois! O Delmiro está de volta à saga-odisseio-epopeica de Os Covidiotas e com ele uns quantos outros personagens que conhecemos melhor ou pior da prolífera (mas não o suficiente) bibliografia do autor Luís Louro.

É isso mesmo! Tal como o Delmiro, o Luís Louro está de volta… Não sei se por me ter dado ouvidos (ver artigo Cientistas descobrem nova raça humana…!!!), se por insistência da sua editora, a Ala dos Livros, ou até por mãozinha do próprio Delmiro (a hipótese que me parece mais certa).

O facto é que a Ala dos Livros acaba de publicar Os Covidiotas: Segunda Vaga, e é nele que vamos ver plasmadas algumas das maiores idiotices dos últimos tempos, quer no mundo, quer neste nosso cantinho que D. Afonso Henriques resolveu baptizar, mas que agora dificilmente crismaria.

Mas… Há vida para lá do Delmiro (ou talvez não)!

Por isso, vamos ao que interessa.

Em 2021, Luís Louro decidiu reunir em livro os cartoons que foi publicando no facebook acerca da pandemia de COVID-19 e dos covidiotas que insistiam em conviver com o vírus, tal como se convive com uma nova namorada ou namorado prestativos.

Um ano depois era de esperar que, juntamente com a extinção do vírus, a raça dos covidiotas tivesse desaparecido. Ora, sabemos que nem um nem a outra desapareceram da nossa vida. Daí que este novo volume seja ainda mais premente que o anterior. É essa a sua primeira qualidade: a possibilidade de aprendermos alguma coisinha e de assim evitarmos a terrível mutação que nos pode transformar em covidiotas.

A segunda qualidade é o humor mordaz, sarcástico, cáustico, irónico, cínico, negro, elegante e, por vezes, bem explícito com o qual nos brinda Luís Louro, cartoon após cartoon. E não pensem que é fácil! É que, concentrar um gag num único cartoon não só exige grande capacidade de condensação de uma ideia com piada como também a agilidade artística para adequar o desenho à mensagem que se quer transmitir. Luís Louro consegue fazê-lo na perfeição.

A terceira qualidade é a da continuidade. Do primeiro para o segundo álbum, temos o regresso de vários personagens recorrentes nos gags.

Desde logo, o misterioso Delmiro que no primeiro álbum tanto aparece como um estudante em tele-aulas que, ao mesmo tempo, assiste a glamorosos filmes XXX, ou como um marido confinado com a mulher e que só pensa em fazer sexo a toda a hora, ou como a pessoa que quer pagar as suas dívidas com os rolos de papel higiénico que comprou a mais, ou ainda como repórter fotográfico ao estilo dos da National Geographic em busca do enquadramento perfeito de certas leguminosas.

Agora, ficamos a saber um pouco mais desta figura enigmática que pertence já ao panteão da 9.ª Arte nacional. Nomeadamente, o seu gosto por taxidermia humana, que a sua amante é fã de látex nas suas mais ousadas formas e que a sua filha gosta de um utensilio absolutamente nojento a que alguns chamam de… Livro (não confundir com o deveras mais apelativo e eloquente rostolivro ou, como dizem alguns anglófilos, facebook). Mas de Delmiro é-nos dado a conhecer muito mais; é só estar atento.

Para além de Delmiro, assistimos ao regresso de Ahmed, o prestável radical que, devido aos sucessivos confinamentos, tem agora de arranjar outras formas de ganhar a vida, inclusive, como se pode ver na página 42, como substituto do Wally, aquele do “Onde está o…?”

Mas talvez o regresso mais inesperado, e que o título do livro nunca deixaria supor, seja mesmo o do exército de covides, cujo líder apresenta semelhanças com um conhecido ditador de seu nome Charlot (ou seria outro?!).

A quarta qualidade está no estilo artístico.

Já não é a primeira vez que reconheço a minha admiração pelo trabalho de Luís Louro desde os primeiros tempos de Jim del Monaco, da Gina (a Gina… ai, ai!) e do Tião. O seu traço “linha clara” é dinâmico e moderno e não é raro surpreender-nos nos seus álbuns com as perspectivas mais complicadas. Quanto às perspectivas, aqui não há grande espaço de manobra já que a composição da imagem é limitada por uma tira. Mas quanto ao resto, temos o suspeito do costume e bem inspirado.

Escusado será dizer que o leitor, do mais atento ao mais “iota”, pode esperar muita crítica social, muita gargalhada impossível de conter e, não menos importante, muita mamoca e muitos inuendos sexuais que de insinuação têm pouco, já que o politicamente correcto não tem propriamente lugar de destaque neste livro (e ainda bem!).

Por fim, não posso deixar de dar um toque narcísico a este texto e citar-me a mim próprio. No texto referente ao primeiro álbum, disse: “E já agora, caro Louro, no caso remoto de me estar a ler, porque não umas quantas tiras com os seus heróis mais conhecidos?! Garanto que os fãs entrariam em delírio ao ver num Covidiotas, a Segunda Dose Jim del Monaco com Gina e Tião, o Corvo, Alice e outros. Pense nisso, com carinho!”

Não sei se o Luís Louro leu o meu texto, ou se, mais uma vez, houve aqui mão do Delmiro, mas o facto é que as minhas preces parecem ter sido ouvidas e O Corvo, o mais extraordinário super-herói português, aparece em pelo menos dois dos cartoons. É descobri-los!

Seja pelo regresso do misterioso Delmiro, seja pelas breves aparições do Corvo, seja pelas muitas mamocas, ou seja até por este ser um novo trabalho de Luís Louro, caro leitor, o meu conselho é que se deixe voltar a espantar pelo melhor que há no que à estupidez humana se refere, com gag após gag que não poupa nada nem ninguém.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.