Análise de Don Vega, de Pierre Alary.

ONU, UNICEF, NATO, PR, PM, AR… As siglas e acrónimos povoam o nosso quotidiano. De maneira mais ou menos rápida, todos as percebemos e entendemos a força do que significam. Mas uma letra, uma só letra, ter a força de um acrónimo e transportar com ela ideais e sonhos, isso é quase impossível.

No mundo da 9.ª Arte passa-se o mesmo. E, no entanto, se virmos um grande “S” estampado numa camisola que veste um peito bombado, é inevitável pensarmos no Super-Homem.

Do mesmo modo, se virmos gravado numa qualquer porta três traços nervosos a formarem um “Z”, só podemos pensar no Zorro.

Originalmente, Zorro não foi um personagem de Banda Desenhada. Criado em 1919 pelo escritor norte-americano Johnston McCulley, viveu pela pena do autor até 1959 ao longo de 4 romances e 53 contos. Mas logo em 1920 surgiu com grande sucesso no filme mudo A Marca de Zorro, tendo como protagonista o famoso Douglas Fairbanks. Desse ponto em diante, Zorro deixaria de ser um personagem das revistas pulp americanas e passaria a ser um ícone universal, atingindo a glória absoluta com a série de televisão da Disney.

Quanto ao universo da Banda Desenhada, muitas foram as histórias publicadas, ganhando especial destaque aquelas que adaptaram a série de TV da Disney pela pena do lendário Alex Toth. E, inclusive, como primeiro ou dos primeiros justiceiros mascarados, Zorro ultrapassou-se a si próprio e faz parte incontornável da mítica origem de Batman.

Agora é a vez da banda desenhada franco-belga recontar (ou reinventar) a história de Zorro e da família De la Vega, através da escrita e do desenho de Pierre Alary no álbum que a Ala dos Livros (cf. apresentação e previews do lançamento nacional aqui) editou recentemente e que nos oferece algumas abordagens inesperadas.

Vamos à história!

1848, Madrid.

Don Vega recebe uma carta do padre Delgado na qual é informado da morte dos seus pais num acidente, da derrota do México que acaba assim de perder o território da Califórnia e da tomada pela força das terras dos Vega e da mina de ouro pelo general Gomez. O padre apela ao seu regresso urgente.

Setembro de 1849, Califórnia.

Calcorreando a rua enlameada sob uma chuva persistente, um maltrapilho encapuçado, com uma garrafa de álcool numa mão e um revólver na outra, arrasta-se até à porta da igreja, o único edifício com uma luz que se projecta da janela. Lá dentro decorre o baptizado do filho do rico usurpador das terras: Gomez. Vindo da noite, o homem de capuz negro irrompe pela igreja, aponta o revolver e grita: “La muerte! Da parte de Zorro!!” Mas Borrow, o esbirro de Gomez, está sempre preparado e se o pobre lhe aponta o cano do revólver, ele aponta-lhe seis. O pobre coitado ainda tem tempo de dar um último golo de álcool, mesmo antes de ser projectado do átrio da igreja pelo impacto da saraivada de balas.

Dias depois, pela calada da noite, uma figura misteriosa totalmente vestida de negro deposita uma única rosa encarnada na entrada do jazigo da família Vega. Ao afastar-se, o seu punho está cerrado de ódio e à cintura um revolver irrequieto repousa no coldre negro. A vingança começa a tomar forma…

Por vezes, as origens perdem-se com o peso do tempo e novas versões surgem como originais. Com certeza, para muitos, o Zorro que lhes povoa as memórias é aquele perseguido pelo exército mexicano, tantas vezes encabeçado pelo paquidérmico sargento Garcia. O Zorro que monta o seu corcel negro, o Tornado, que é ajudado pelo seu criado mudo Bernardo, e que deixa a sua marca por todo o lado, até nos corpos dos vilões. E, no entanto, não é este Zorro disneyano o mais próximo do personagem criado por Johnston McCulley em 1919. Esse será o de Pierre Alary, que cria, neste Don Vega, uma espécie de regresso às origens e que o coloca num contexto histórico muito mais exacto.

Passadas sete décadas de se verem livres do Império Britânico, os Estados Unidos prosseguem a sua política expansionista, anexando o Texas em 1845 e arrancando a Califórnia das mãos dos mexicanos na guerra de 1848. Mas só dois anos mais tarde, a Califórnia passaria a fazer parte dos Estados Unidos. Entretanto, é uma espécie de “terra de ninguém”, na qual alguns proprietários sem escrúpulos e com ambições desmedidas fazem as suas próprias leis e espoliam os bens de famílias inteiras. A situação torna-se ainda mais complicada com a desenfreada corrida ao ouro no Vale de Sacramento. É o vale tudo.

E é precisamente neste contexto que se situa Don Vega. O antigo general Gomez expropria pela força inúmeros proprietários de terras. Ganancioso, toma também a posse da enorme mina de ouro do povoado. Nos campos ou nas profundezas da terra, os peões são obrigados a trabalhar para Gomez sob constante ameaça e em condições deploráveis.

A ele, basta-lhe esperar pacientemente pois está para breve a ratificação da Constituição da Califórnia que o beneficiará dentro de toda a legalidade.

Mas os peões, um a um, parecem tomar para si a lenda de Zorro, o protector dos desfavorecidos. A conta-gotas, disfarçados com um capuz preto e incarnando o herói popular, vão fazendo frente a Gomez e a Borrow, o seu temível braço direito. E um a um, todos vão sendo abatidos ou enforcados. Até que há um que teima em não ser apanhado, frustrando a pouco e pouco os planos de Gomez. Afinal, será que Zorro existe mesmo? E quem será ele?

Pierre Alary escreve e desenha assim uma prequela das aventuras do Zorro que conhecemos e dá-nos a razão de ser do herói. O enredo está brilhantemente construído e só revela a totalidade do seu alcance chegado o leitor à última página. A narração, consistente, vem dar força a uma história apaixonante a vários níveis. E nem as questões de direitos de autor que o impedem de utilizar, por exemplo, o cavalo Tornado, o Sargento Garcia ou a própria marca de Zorro (o “Z”) conseguem diminuir o poder da sua história. Bem pelo contrário, Alary consegue enriquecer o seu enredo, afastar-se da versão da Disney, e criar um ambiente mais realista e de maior rigor histórico. E se só uma vez vemos o famoso “Z” como a cicatriz que se esconde debaixo da pala branca usada por Borrow, outra marca igualmente interessante vai aparecendo ao longo da história.

Tendo créditos mais que firmados no mercado da BD franco-belga como desenhador, Pierre Alary acumula em Don Vega, pela primeira vez, a tarefa de argumentista e ilustrador. Mas o trabalho a dobrar não o impede de nos brindar com o seu traço semi-realista e dinâmico no qual utiliza de forma brilhante a técnica da chamada “trama japonesa”.

O tratamento gráfico que dá à narrativa é muito cinematográfico, com uma planificação bastante diversificada de prancha para prancha, ritmada e vinhetas com alguns ângulos espectaculares.

Os cenários são detalhadamente trabalhados e a colorização utiliza vários sistemas de bicromias variáveis, sempre adaptadas à iluminação e ambiência do momento.

Em suma, com este Don Vega, Pierre Alary faz-nos mergulhar num universo bastante western, com personagens arquétipos, uma intriga só aparentemente por todos conhecida e uma surpresa final que mais parece um cliffhanger.

Aliás, é este “gancho”, este aparente final em aberto, que nos faz reclamar, antever, desejar uma continuação.

Para os leitores mais velhos, este é um voltar à infância e aos momentos “sagrados” em que a RTP passava a cada semana um novo episódio de Zorro. Sem verem o seu herói desvirtuado, podem agora observá-lo de um ângulo mais real, mas igualmente mágico e nostálgico.

Para as gerações mais novas, deixem-se contagiar, preparem a nostalgia para o futuro e deixem-se levar pela letra que vale por si só…

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.