Análise de Dante

Já ouvi dizer que o novo trabalho de Luís Louro era remotamente aparentado com A Divina Comédia de Dante Alighieri. E que também teve como referências O Capuchinho Vermelho, Peter Pan e Fadas Láureas (este de sua própria autoria).

E se não posso deixar de reconhecer, aqui e ali, essas influências, bem como a de O Senhor dos Anéis, para mim, e mesmo que o autor diga o contrário, a influência maior até é a de Lewis Carrol e das aventuras da sua Alice (a de Carrol, não a de Louro).

Dito isto, o álbum Dante, que a Ala dos Livros acaba de publicar (cf. apresentação e previews do lançamento nacional aqui), é uma obra absolutamente original, absolutamente grandiosa e à qual eu não me teria importado nada que o autor tivesse acrescentado mais cem páginas (apesar do generoso caderno final repleto de extras).

Como já tive oportunidade de afirmar em outros artigos, sempre que escrevo acerca de Luís Louro sou tendencioso. O seu trabalho dá-me gozo, o seu humor faz-me sorrir e o seu traço encanta-me. E com esta declaração de princípios, vou tentar (mas não prometo) fazer uma análise o mais isenta possível desta obra que já devia estar publicada em 200 países e traduzida em mais de 6900 línguas, idiomas e dialectos.

Sendo assim…

Vamos à história!

Uma brisa suave faz soltarem-se das árvores as primeiras folhas castanhas que anunciam a chegada do Outono. Um bando de corvos reúne-se junto à vedação que delimita aquela parte da paisagem campestre. Duas libelinhas incautas (ou corajosas) fazem o seu voo bailado por entre os pássaros.

VRRROOMM… do nada, a paz bucólica é esmagada pelo roncar persistente de dois caças. O Messerschmitt em fuga executa as manobras mais arriscadas enquanto, no seu encalço, o Spitfire metralha-o sem tréguas. É como se Hitler e Jorge VI se enfrentassem nos céus de França. O caça alemão acaba por ser abatido e despenha-se no meio de um bosque.

Aparentemente alheio à guerra que fustiga o mundo, Dante brinca com os amigos e com o bode Adolfo nas imediações da sua quinta. Mas quando regressa a casa, a dura realidade parece ter-lhe entrado pela porta adentro. A sua mãe cega espera-o na cozinha e não está sozinha. Uma patrulha nazi veio instalar-se na sua casa. O Major, simpático, irá recuperar de um ferimento enquanto os seus homens procuram o piloto abatido.

Dante não está satisfeito e resolve lidar com a situação à sua maneira – vestir o espantalho que está na orla da floresta com novas roupas velhas. No caminho acaba por esbarrar com o Messerschmitt abatido e é surpreendido por Virgílio, o espantalho com quem, afinal, ele e só ele consegue falar. Parece que o piloto escapou e se embrenhou pela floresta, segundo o espantalho. Dante sobe para o cockpit e deixa-se levar pela emoção da guerra e da brincadeira.

Mas no dia seguinte, a inocência da infância termina para ele quando, ao entrar no palheiro, surpreende os soldados do Major a violarem a mãe. Sob ameaça e aterrorizado, Dante foge pelos campos, perseguido por um dos soldados. E, sem se dar conta, acaba por ir parar junto do avião abatido. O soldado aponta-lhe a Mauser. Por sua vez, Dante, aponta-lhe a Mauser que tinha descoberto no avião no dia anterior. Ouve-se um disparo. Os corvos levantam voo. Folhas castanhas soltam-se das árvores…

“Ó vós que entrais, abandonai toda a esperança.” Entrada grandiosa a que Luís Louro nos franqueia ao iniciar esta sua nova obra. Cita Dante Alighieri, cita a Divina Comédia, cita O Inferno. E, no entanto, a frase que termina a mensagem que está à porta do Inferno, lida por Dante e pelo seu mestre Virgílio, deveria ler-se aqui “Ó vós que entrais, acalentai toda a esperança.” Esperança na história… esperança na arte… esperança na BD nacional. E com Dante, a espera da esperança está terminada, pois a esperança está concretizada.

Luís Louro oferece-nos aqui a sua história de maior fôlego. Não só pela dimensão generosa (mais de 100 páginas que dão vontade de continuar a ler por mais 100), mas também por correr entre, pelo menos, dois universos, e ainda pelo registo algo diferente do que habitualmente caracteriza as obras do autor.

Comecemos pelo registo. O humor é a película que envolve todas as obras do autor. Não quer dizer que não sejam abordados assuntos sérios, mas são-no maioritariamente num tom cómico. Ora, em Dante, a película que envolve a obra é o drama, a tragédia, mesmo que o humor de Louro surja, e bem conseguido, em algumas das cenas.

A narrativa é tão inteligente quanto são cuidadosos os inúmeros pormenores que vamos encontrando ao longo do livro. Vejamos a sequência das primeiras cenas. Uma batalha entre dois caças icónicos da Segunda Guerra Mundial abre a história como se de um livro de guerra se tratasse. Contudo, não passa de um pretexto para despoletar uma sequência de eventos que porá uma família de mãe e filho em perigo e que levará a criança numa viagem fantástica de crescimento.

Mas, antes que a viagem tenha início, e imediatamente a seguir à batalha aérea, temos uma sequência de duas páginas aparentemente inocentes e inconsequentes. E, no entanto, dizem tanto! Dante brinca despreocupado com o seu grupo de amigos. No final, regressa a casa à boleia na bicicleta de um dos rapazes. É simples, não é?! Mas o ambiente Tom Sawyer está lá, o dos rapazes traquinas a aproveitarem o que a natureza lhes dá. E a isto o autor, sempre atento e cuidadoso com os detalhes, acrescenta as brincadeiras da época – o “Lá vai alho” e o berlinde –, as roupas e o calçado que vemos em fotos desses tempos e até uma pasteleira, peça única pois o dinheiro escasseava e o meio de transporte mais usado pelas crianças eram as botas. E, por fim, o apontamento humorístico – o bode Adolfo com um bigodinho semelhante ao do seu homónimo humano.

Na terceira cena conhecemos o “inimigo”. Ao regressar a casa, Dante dá de caras com dois soldados alemães encostados a um detalhado Volkswagen Kübelwagen. Na cozinha, está a sua mãe Beatriz (também o nome da musa de Dante Alighieri) com um Major das SS. Parece calma, sem medo. O Major é simpático e atencioso. Dante não percebe. Afinal, aquele é o inimigo, pelo menos é o que faz crer o soldado que o olha ameaçadoramente de soslaio. E é isto que Louro faz aqui como ninguém: o mau até pode ser bom e o bom até pode ser displicente. E depois, novamente os pormenores detalhadamente cuidadosos. Já não falo dos uniformes dos soldados, equipamento e armas. Mas reparem no rigor dos utensílios de cozinha: o escoador, a cafeteira e até aquela proverbial cortina que tantas vezes servia de porta de um armário.

Poderia continuar até ao fim, cena a cena, e haveria sempre que relatar uma narrativa dentro da narrativa. E tudo regado com muitos pormenores. Deixo-vos o prazer de os irem descobrindo.

Passo agora para os universos em que decorre a história.

O primeiro, o mais evidente, é o da França rural durante a Segunda Guerra Mundial. Humilde, simples e assolada tanto pelas forças ocupantes como pela Resistência. É o primeiro mundo de Dante.

O segundo universo é o da mente de Dante na França rural. É aí que vive Virgílio, o seu amigo espantalho com quem conversa e brinca. Virgílio, o famoso escritor da Roma Antiga que no Renascimento serve de guia a Dante na sua viagem pelo Purgatório e pelo Inferno. Mas o Virgílio deste Dante de Louro mais parece a mistura perfeita entre o Chapeleiro Louco e outros personagens de Alice no País das Maravilhas (até nem falta o relógio do Coelho Branco) e o Espantalho, inimigo figadal de Batman, acerca de quem, mesmo na cena final, me parece ver nova referência através da carta do “Joker” no bico de um corvo, simbolizando a loucura dos homens.

Quando Dante, já em fuga, resolve ir esconder-se em casa da avó do outro lado da floresta, é Virgílio o Espantalho que o aconselha a seguir pela estrada e não pelo mundo medieval onde residiam todos os males – a floresta. A alusão ao Capuchinho Vermelho é clara, mas com o correr da história, esta cena acaba por nos remeter à entrada da Alice na toca do coelho apenas para ir parar a um mundo fantástico, povoado por estranhas e bizarras criaturas que se regem por lógicas absurdas, exactamente o que acontece também com Dante.

E, por fim, o terceiro universo – talvez o mais complexo. É aquele que podemos classificar de igual modo real e irreal, consoante a leitura que queiramos dar à história de Louro. A floresta é mesmo mágica ou tudo não passa de uma fantasia da mente de Dante? De qualquer modo, chegados a este mundo, entramos também, e agora em força, no mundo da Alice de Lewis Carrol, com uns laivos de Peter Pan de J. M. Barrie.

Desde logo, temos uma galeria de personagens fantásticas, todas antropomórficas, umas representando o bem e outras o mal. As do bem parecem remeter para o bando dos Meninos Perdidos de Peter Pan. São fadas e não-fadas e outras criaturas, lideradas por Neiklot (a forma que Leonardo Da Vinci utilizaria para escrever Tolkien). É com elas que Dante vai evoluir, são elas que o vão ajudar a atravessar o bosque e a reencontrar-se, são elas que vão levar Virgílio a descobrir o seu grandioso segredo.

Já as criaturas do mal são os Goblins, que têm a particularidade de serem vistos consoante os “demónios e terrores” de cada um que os observe. E o leitor vai vê-los pelos olhos de Dante. São por isso criaturas de rosto horrendo, fardadas com os uniformes do exército nazi, o mesmo que ocupa a sua casa e fez mal à sua mãe.

E para que não haja dúvida que são do mal (como se tal fosse possível), Luís Louro utilizou (criou) um tipo de letra especial para as suas falas. Uma letra rasgada, conspurcada, impura. E para que haja ainda menos dúvidas, são liderados por Reltih, coadjuvado por Gnirog (Hitler e Goering à la Da Vinci) e outros tantos. Já agora, Reltih tem a mesma deficiência do Capitão Gancho de Peter Pan e pode dizer-se que é um vilão a dobrar, um verdadeiro 2 em 1.

Se a narrativa e o traço de Louro brilham nos primeiros dois mundos, é neste terceiro que a sua criatividade e originalidade atingem o ponto mais elevado. Os décors, hiper-detalhados, repletos de elementos fantásticos, alternando entre a luz e as trevas, são absolutamente fabulosos e criam, por si só, ambientes e estados de espírito que fazem avançar a narrativa.

As criaturas já mencionadas lembram remotamente os doces devaneios de Fadas Láureas

…mas é notório que, de então para agora, o traço de Louro não deixou de evoluir, a par com a sua imaginação e com a sua criatividade.

E mesmo quando a inspiração parece vir-lhe directamente de Tolkien e dos seus Ents (criaturas parecidas com árvores), Luís Louro aumenta a parada e transforma-os em algo verdadeiramente grandioso.

Seja pelo registo utilizado, seja pela ambição de nos transportar em pouco mais de 100 páginas para vários universos, seja pela qualidade e criatividade artística, não tenham dúvidas… Louro está no seu melhor!

E as inúmeras referências (algumas já mencionadas) que habitualmente caracterizam as obras de Louro, estão aqui em número muito generoso para gáudio dos leitores mais atentos. E não resisto a mencionar apenas mais duas. Caronte, o barqueiro que atravessa o rio Estige e leva as almas para o Hades (inferno), dá o nome à portentosa “barca do inferno” de Reltih que, ironicamente, ostenta o número 1, como se do Airforce One se tratasse.

A outra referência é à Terra do Nunca, de Peter Pan, e que aqui surge como a Queda do Nunca, o abismo que só pode ser atravessado pela nave Caronte. Quem nele cair, cai por toda a eternidade, tal como acontece, de certo modo, na Terra do Nunca – aqueles que nela entrarem esquecem o seu passado, perdem as suas raízes e nela ficarão para toda a eternidade como Meninos Perdidos, ou substituindo a Rainha de Copas no País das Maravilhas.

Volto a dizer… Louro no seu melhor! Inteligente, mas sem prosápia. Sério, mas com humor. Criativo, mas ainda mais criativo (a meio da história até consegue mudar completamente de estilo ao longo de quatro páginas ao contar-nos a lenda dos pais de Dante).

A obra é rica, muito rica! E chegados ao fim, ainda somos brindados com uma página que grita “O OUTRO LADO” e nos abre as portas para o mundo onde se esconde o autor, que parece observar a nossa reacção quando somos chegados à última página da história. Como a Alice de Lewis Carrol, ou como a sua própria Alice, que discretamente dá o nome ao avião abatido, este é o Louro do “Outro Lado do Espelho”.

SOBRE O AUTOR |

Francisco Pedro Lyon de Castro
Francisco Pedro Lyon de CastroColaborador
Amante da literatura em geral, apaixonado pela BD desde a infância, a sua vida adulta passa-a toda rodeado de livros como editor. Outra das suas grandes paixões é o cinema e a sua DVDteca.