Histórias de Bondade. Crítica – Estreia dia 4 de julho!

Histórias de Bondade. Crítica – Estreia dia 4 de julho!

Crítica ao filme Histórias de Bondade, do realizador Yorgos Lanthimos.

Com este novo filme, denominado Histórias de Bondade, Lanthimos parece regressar em forma à sua lavra anterior, chamemos de fase “grega”, em mais uma colaboração produtiva com o dramaturgo Efthimis Filippou, ainda que numa nova roupagem “americana”. A qualidade fragmentária da narrativa do filme – para além da natureza antológica óbvia – , obrigando a constantes suturas com material ausente, o claríssimo mergulho no absurdo social, e o humor negro, voltam a ganhar território em toda a tessitura do filme. O resultado é uma interrogação anfractuosa sobre o papel dúbio da vontade humana entre a liberdade e o que está predestinado.

Histórias de Bondade

Se dizemos ser “óbvia” a qualidade da sua fragmentariedade, deve-se ao facto de que este filme compreender três histórias no seu interior. Não são propriamente “vinhetas” de um mesmo universo referencial (à la Jarmush) nem “episódios” ou até “facetas” de uma mesma história (como ocorre, respectivamente, em Pulp Fiction e em Rashomon), mas algo próximo de Parajanov ou Kiarostami, no sentido de providenciar declinações de um mesmo tema, ainda que mais aristotélico. Para ficarmos mais próximos de Hollywood, um bom termo de comparação seria A Balada de Buster Scruggs, dos Coen. Essas três histórias intitulam-se, por ordem, “A morte de R.M.F.”, “R.M.F. voa” e “R.M.F. come uma sanduíche”. Cada uma delas apresenta um ou uma protagonista, integrada numa constelação de personagens cujas relações são postas em causa por um pequeno desvio. “R.M.F.” é uma personagem secundária, uma espécie de McGuffin, que é instrumentalizada pelas acções de cada narrativa.

Histórias de Bondade

Estes protagonistas – um funcionário de uma companhia de construção mas cuja função é bem mais complexa e profundamente pessoal do que se espera, uma cartógrafa marítimas cujo reaparecimento misterioso incita uma teoria da conspiração, e uma “olheira” buscando pela revelação de uma profecia – estão integrados num sistema claro de hierarquização, controlo e ordem, na qual existem sempre figuras de autoridade (o “patrão”, o “marido” e os “líderes do culto”). A intriga de cada história vem desafiar a noção de controlo, e toda a estrutura vigente titubeia, com desenlaces mais ou menos trágicos, ou felizes, ou até, trágico-cómicos. É mesmo possível que sejam sempre ambos, conforme uma perspectiva momentânea nossa sobre “o assunto”. O importante é notar como as estruturas de poder podem ser desintegradas por pequenos gestos, e como a rebeldia tem a sua recompensa, mesmo que momentânea, mesmo que ela própria seja, no final de todos os movimentos, eliminada ou subjugada de novo.

Histórias de Bondade

Por mais bizarras que sejam as normas que parecem ser desafiadas – o controlo absoluto de um patrão sobre as minudências da vida de um seu empregado (inclusive o que veste, o que come, quando faz amor, se pode ter filhos ou não, etc.), a configuração doméstica e sexual de um marido (polícia!) sobre a mulher, e o corolário máximo num culto New Age – elas não devem ser vistas como totalmente absurdas ou estranhas, mas tão-somente um reflexo, talvez hiperbólico, ainda que real, das estruturas que nos absorvem a nós. Nesse sentido, e acreditamos que isso se deva mais ao trabalho de Filippou, estamos muito próximos dos quadros de Ionesco ou Beckett, em que o aparentemente ridículo não é mais que um tornar evidente o que nos rodeia, de resto, o propósito da reflexão existencialista.

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