Os Prémios Bandas Desenhadas têm por fim promover anualmente a banda desenhada produzida e editada em Portugal, através da distinção dos melhores lançamentos editoriais de autores nacionais e estrangeiros.

As nomeações das obras concorrentes aos Prémios Bandas Desenhadas têm uma particularidade – são realizadas ao longo do ano, cada uma delas correspondendo a um trimestre editorial, formalmente designado pela estação do ano que vigora na maioria do seu período. Deste modo, ao longo de cada ano, são anunciadas as Nomeações de Inverno, de Primavera, de Verão e de Outono (antropomorfizadas por Daniel Maia e Susana Resende), bem como as finais Nomeações Extemporâneas, as quais contemplam obras avaliadas pelos jurados após o anúncio do trimestre a que as mesmas digam respeito. Deste modo, assegura-se a possibilidade de contemplar obras que, por questões de acessibilidade ou de outra ordem logística, são alvo de apreciação após o trimestre em que foram publicadas.

Tendo o nosso Observatório identificado a edição de mais de 280 publicações de banda desenhada em 2021, graças ao trabalho desenvolvido ao longo do ano pelo nosso site, a grande maioria foi alvo de leitura atenta, sendo essa apreciação de tantas obras pelos jurados uma das características fundamentais que o distingue de outros prémios atribuídos em Portugal na área da Banda Desenhada. Tal como as nomeações, a atribuição dos prémios foi realizada pela equipa nuclear do site – Carla Ramos, Nuno Pereira de Sousa, Rodrigo Ramos e Susana Figueiredo -, com experiência prévia enquanto jurados na premiação de obras de banda desenhada. Lutando contra o habitual binómio gosto/não gosto, que é tão frequente no meio, tiveram em conta critérios relacionados com a natureza narrativa e gráfica das obras, tais como a execução, originalidade, pertinência e novidade do tema ou meios utilizados, entre outros.

Ao realizar apenas uma nomeação por categoria em cada trimestre, o júri congratulou-se com a existência do debate gerado internamente em cada uma dessas ocasiões, dado nalgumas categorias existir mais do que um candidato forte. Tal foi ainda mais exigente para a seleção de vencedores, com o confronto dos escolhidos nas diferentes Estações do Ano de 2021.

Após a pandemia de COVID-19 nos ter impossibilitado, nas primeiras duas edições dos Prémios Bandas Desenhadas, de realizar uma cerimónia com a divulgação e entrega dos Prémios, este ano, realizámos tal no XVII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, tendo ainda inaugurado, em coordenação com a organização do Festival, um ciclo de exposições dedicado aos autores premiados em edições anteriores dos Prémios Bandas Desenhadas, tendo este ano sido realizada a exposição “Altarriba e Keko: Eu, O Perdão e a Fúria”, dado a obra Eu, Louco, da autoria de Antonio Altarriba e Keko, ter sido agraciada com dois Prémios na 1.ª edição dos Prémios Bandas Desenhadas (Melhor Publicação Estrangeira e Melhor Argumento Estrangeiro).

Sem mais delongas, apresentamos os Vencedores das obras publicadas em 2021. Relembramos que ao realizar apenas uma nomeação por categoria em cada trimestre, como vários autores e editores nos têm apontado, está-se na verdade a eleger o “vencedor” de cada trimestre. Tal não deixa de ser verdade e, mais do que nunca, nunca os Nomeados estiveram tanto de parabéns como com estes Prémios. Cada um representa o Melhor do período em que foi considerado, “confrontando-se” os escolhidos pelas diferentes Estações do Ano nesta última seleção de vencedores.

Melhor Publicação Nacional com Distribuição Comercial

Gente Remota – Francisco Sousa Lobo (Chili Com Carne)

O Prémio de Melhor Publicação Nacional com Distribuição Comercial foi atribuído à campeã de outono de 2021, Gente Remota, da autoria de Francisco Sousa Lobo, editada pela Chili Com Carne. Narrada na atualidade, evoca memórias da Guerra Colonial, evidenciando a estranha relação que o Portugal atual tem com o seu passado de império global. Concomitantemente, o autor realiza uma crítica social contemporânea, desde as opiniõezinhas nas redes sociais e sites de (des)informação terem substituído o jornalismo sério até a uma reflexão sobre a própria banda desenhada (à qual não falta o apontar de dedo a quem tenta tapar o sol com a peneira com o termo “novela gráfica“). Outra temática importante na obra é a vida académica, com a evocação de como a normalidade que se tornou o mundo universitário influencia o futuro dos jovens adultos, os pequenos poderes dos docentes ou a depressão nos estudantes universitários.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Publicação Nacional com Distribuição Alternativa

Palácio n.º 3 – Francisco Sousa Lobo (ed. autor)

Relembra-se que consideramos Distribuição Alternativa as publicações que não usam como canais de distribuição nem as livrarias nem os pontos de venda de periódicos. Palácio n.º 3, da autoria de Francisco Sousa Lobo, editado pelo autor na primavera de 2021, conquistou o júri. Com um maior número de páginas, este terceiro número não só prossegue a publicação de mais capítulos da incontornável “40 Ladrões”, como inclui duas outras BD que demonstram um autor em plena fase criativa, dominando completamente o meio para narrar as suas estórias.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Argumento em Publicação Nacional

Palácio n.º 3 – Francisco Sousa Lobo (ed. autor)

Pelas razões supracitadas, Palácio n.º 3, da autoria de Francisco Sousa Lobo, editado pelo autor na primavera de 2021, foi também premiado na categoria Melhor Argumento em Publicação Nacional.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Ilustração em Obra Nacional

Mnemosina – André Coelho (Bestiário)

O Prémio de Melhor Ilustração em Obra Nacional foi atribuído à obra Mnemosina, da autoria de André Coelho, editada no inverno de 2021 pela Bestiário. Esta obra confirma que o autor de Terminal Tower e Acedia domina não só a ilustração das paisagens desoladas como a figura humana, com os contrastes poéticos do preto na página branca a causarem deslumbramento. No XVIII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, em 2023, será realizada uma exposição dedicada à obra do autor.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Antologia

Umbra n.º 3 (Umbra)

Para efeito destes Prémios, as categorias referentes a Antologias apenas contemplam a compilação de obras de autores distintos, sem um fio condutor entre as BD propostas. A obra vencedora do Prémio de Melhor Antologia foi a Umbra n.º 3, editada pela Umbra no outono de 2021, com trabalhos de Bárbara Lopes, David Soares, Filipe Abranches, Pedro Moura, Ricardo Baptista e Simon Roy, tendo-se revelado uma antologia equilibrada quanto às suas diferentes propostas. A exploração de diferentes modos narrativos e de diversas soluções gráficas pelos vários autores, reforça novamente o valor desta série antológica.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor BD Curta editada em Antologia

“Terra Queimada” – Sofia Neto (em Querosene – Chili Com Carne)

A BD campeã da primavera de 2021, “Terra Queimada“, da autoria de Sofia Neto, publicada na obra Querosene da Chili Com Carne, foi a BD curta vencedora desta categoria. Respeitando a temática da antologia onde foi publicada, um retrato do entorpecimento provinciano, imutável década após década, resume, em pouca vinhetas, todo o propósito do livro, com uma eficiência que é de louvar.

Eis os nomeados nesta categoria:

  • Inverno: “Menino Perdido” – Susana Resende (em Outras Bandas n.º 4 – Tágide)
  • Primavera: “Terra Queimada” – Sofia Neto (em Querosene – Chili Com Carne)
  • Verão: “Mise en Abyme” – Nuno Filipe Cancelinha & Raquel Costa (em Ditirambos vol. 2: Abismo – Ditirambos)
  • Outono: “Weep Me Not Dead” – Pedro Moura & Ricardo Baptista (em Umbra n.º 3 – Umbra)
  • Extemporânea: “Exótico” – Fernando Lucas (em Apocryphus: Monstro! – Mighell Publishing | Fórum Fantástico)

Melhor Publicação Estrangeira

O Relatório de Brodeck (baseada na obra de Philippe Claudel) – Manu Larcenet (Ala dos Livros)

A banda desenhada O Relatório de Brodeck (baseada na obra de Philippe Claudel), de Manu Larcenet, editado pela Ala dos Livros no outono de 2021, foi o livro galardoado pelos jurados para o Prémio de Melhor Publicação Estrangeira. A obra entrelaça a estória do linchamento de um estrangeiro com as vivências do protagonista e outros segredos da aldeia onde a narrativa se desenrola, evocando o genocídio, a vida após sobreviver a um campo de concentração, a obrigação de recordar os crimes de guerra, a importância da memória e de não esquecer… Os temas abordados por Claudel no seu romance são transpostos por Larcenet numa obra extremamente cuidada a nível gráfico, sendo uma adaptação para a BD extremamente bem conseguida.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Argumento Estrangeiro

O Relatório de Brodeck (baseada na obra de Philippe Claudel) – Manu Larcenet (Ala dos Livros)

Pelas razões supracitadas, O Relatório de Brodeck (baseada na obra de Philippe Claudel), de Manu Larcenet, editado pela Ala dos Livros, foi galardoado com o Prémio de Melhor Argumento Estrangeiro.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Ilustração Estrangeira

O Relatório de Brodeck (baseada na obra de Philippe Claudel) – Manu Larcenet (Ala dos Livros)

Pelas razões supracitadas, O Relatório de Brodeck (baseada na obra de Philippe Claudel), de Manu Larcenet, editado pela Ala dos Livros, foi galardoado com o Prémio de Melhor Ilustração Estrangeira.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Publicação de Humor

Spaghetti Bros 2 – Carlos Trillo & Domingo Mandrafina (Arte de Autor)

A Melhor Publicação de Humor é uma categoria sui generis, pois contempla registos vários, desde tiras humorísticas a cartoons. Por outro lado, é uma das categorias que não distingue as publicações nacionais das estrangeiras, devido ao facto da aposta modesta que habitualmente o meio editorial faz no género. O segundo volume da divertida e, por vezes, hilariante comédia de costumes que segue a saga da família italiana Centobucchi, radicada em Nova York no final dos anos 20 do século passado, Spaghetti Bros, da autoria de Carlos Trillo e Domingo Mandrafina, editada pela Arte de Autor na primavera de 2021, foi galardoado com o Prémio desta categoria.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Série de Publicações

Peter Pan – Régis Loisel (ASA)

Peter Pan, da autoria de Régis Loisel, editado pela ASA, foi a escolha do júri para o Prémio de Melhor Série de Publicações. Não só se trata de um clássico moderno da banda desenhada franco-belga, como é de salutar que finalmente se tenha realizado a sua edição integral, após dois cancelamentos por duas editoras distintas. Esta prequela não oficial da famosa obra de Sir James Matthew Barrie merece toda a atenção, quer a nível do seu argumento quer da ilustração.

Eis os nomeados nesta categoria:

  • Inverno: Rio – Louise Garcia & Corentin Rouge (ASA)
  • Primavera: Peter Pan – Régis Loisel (ASA)
  • Verão: Monstress – Sana Takeda & Marjorie Liu (Saída de Emergência)
  • Outono: Sapiens (baseada na obra de Yuvel Noah Harari) – David Vandermeulen & Daniel Casanave (Elsinore)
  • Extemporânea: Armazém Central – Régis Loisel & Jean-Louis Tripp (Arte de Autor)

Melhor Edição

A Fera – Zidrou & Frank Pé (A Seita)

Nesta categoria, os jurados têm em conta não só as bandas desenhadas propriamente ditas mas também o seu suporte físico e a qualidade dos conteúdos extras à própria BD. Deste modo, a nível de Melhor Edição, o júri galardoou A Fera da autoria de Zidrou e Frank Pé, editado por A Seita. Para além das dimensões, da qualidade de impressão e do cuidado na escolha do papel para esta para esta banda desenhada, na qual os autores recriam o Marsupilami de forma mais realista e onde se evocam algumas das consequências da França ter sido invadida na Segunda Guerra Mundial, os jurados destacam ainda os extras que vigoram na edição nacional da obra.

Eis os nomeados nesta categoria:

Melhor Reedição

Corto Maltese vol. 10: Tango – Hugo Pratt (Arte de Autor)

Nesta categoria, os jurados têm em conta não só as bandas desenhadas propriamente ditas mas também o seu suporte físico e a qualidade dos conteúdos extras à própria BD, no sentido de avaliar o valor acrescentado da nova edição dessa BD. A obra vencedora foi Corto Maltese vol. 10: Tango, da autoria de Hugo Pratt, editada no verão de 2021 pela Arte de Autor. Trata-se de um volume em capa dura, com papel e impressão de qualidade, impresso a preto e branco, com um dossier complementar colorido, ofuscando as anteriores edições nacionais desta importante obra da história da banda desenhada.

Eis os nomeados nesta categoria:

Congratulamos todos os vencedores! Agradecemos ainda a todos os nomeados o trabalho e empenho que tornou tão rico o ano de 2021. Relembramos que, para além destas obras, muitas, muitas outras merecem a atenção dos leitores habituais e pouco habituais deste meio que é a banda desenhada, destacando o nosso site mensalmente um conjunto de dezenas de propostas, onde constam as melhores leituras e releituras que a equipa nuclear do Bandas Desenhadas vai realizando ao longo do ano.