Nome incontornável na banda desenhada nacional, não será de estranhar que o nome de António Jorge Gonçalves frequentemente surja no nosso site. No entanto, com exceção de exposições coletivas e livros poliautorais de cartoons – e para além das intemporais Leituras Recomendadas -, não tem sido a BD a responsável pela sua incursão a solo em recentes artigos no nosso site, mas sim os livros ilustrados (p.e., Barriga da Baleia, Eu Quero a Minha Cabeça!) ou a ilustração per se (p.e., espetáculo 4 Mãos).

Com A Minha Casa Não Tem Dentro, editado este mês pela Abysmo (o 53.º título da editora), o autor regressa (?) à banda desenhada. A interrogação colocada entre parêntesis prende-se não só com o discutível significado de regresso (pressuporia uma eventual partida), mas também o se considerar esta narrativa gráfica uma BD ou não. Assumimos que sim e, a propósito de tal, já defendemos a nossa posição e demos uma breve explicação sobre a mesma, que pode ser lida aqui e aqui, à qual não retornaremos neste artigo.

A Minha Casa Não Tem Dentro surge como uma necessidade do autor de partilhar connosco a sua experiência com a própria morte. Após quase 1 ano após o episódio que ameaçou que a pessoa António não permanecesse deste lado, surge o trabalho criativo do autor. Ao invés de nos contar como tal acontecimento marcante alterou a percepção da vida da pessoa António e o modificou, o autor pega na nossa mão e (re?)inicia connosco uma viagem onde passado e presente se mesclam, em grossos traços e tons escuros, e onde o cru não permite adoçar a vivência.

Quanto ao título da obra, registe-se a curiosidade de que é um jogo de desafio oral praticado na rua entre as crianças de Luanda, contado ao autor por Ondjaki.

Eis o trailer:

Eis a sinopse da editora:

A chave de A MINHA CASA NÃO TEM DENTRO encontra-se logo na frase que abre a novela (autobio) gráfica: «No dia 22 de fevereiro de 2016 – por causa de uma veia que rebentou no meu estômago – morri e regressei à vida, num acontecimento que atravessou espaço e tempo separando e unindo em simultâneo. Descrevê-lo com desenhos fez parte dessa viagem.» Esta narrativa faz-se numa sucessão vertiginosa de imagens (marcador sobre papel e aguarela) fortíssimas, duras, mas sobretudo oníricas, de sonho e pesadelo, que mergulham raízes no grande oceano do imaginário, dos mitos fundadores, das representações da morte, da infância, do desenho e da música, enfim, da criação. Há uma mão, a do cuidado e da ameaça, a que se ergue da ruína e a que faz sombra, a mão do lápis. E uma menina, uma Alice que descobre, por detrás de uma cortina de sangue, o peso da mão, uma cidade que se monta e o grande circo do espectáculo. Ninguém ficará indiferente a esta reflexão lúcida sobre a vida. E a morte.

ANTÓNIO JORGE GONÇALVES (Lisboa, 1964) é autor de diversos romances gráficos entre as quais a trilogia Filipe Seems (com Nuno Artur Silva), A Arte Suprema e Rei (com Rui Zink), pelas quais foi premiado várias vezes no Festival Internacional de BD da Amadora. Fez direção visual em várias peças de teatro. Com o desenho digital em tempo real e a manipulação de objectos em retroprojector de transparências, tem criado diversas acções performativas com músicos, actores e bailarinos em Portugal, França, Alemanha, EUA, Japão e Itália. Criou o projeto Subway Life, desenhando pessoas sentadas nas carruagens do Metro em várias cidades do mundo. Publica semanalmente, desde 2003, cartoon político nas páginas do Inimigo Público (jornal Público): já foi distinguido diversas vezes no World Press Cartoon e viu os seus desenhos serem publicados no Le Monde, Courrier Internacional e em várias colectâneas internacionais. Foi distinguido em 2014 com o Prémio Nacional de Ilustração (DGLB) pela obra Uma Escuridão Bonita (com Ondjaki).

A Minha Casa Não Tem Dentro
António Jorge Gonçalves
Páginas: 112
Miolo em papel Munken Pure de 130 g/m2
Guardas Pop Set de 120 g/m2
Capa Forro da capa impresso a 4/0 cor, em Pop set de 130 g/m
Armada em cartão de 2,5 mm
Formato: 17,5 x 24 cm
ISBN 978-989-8688-42-2
PVP: 20,00€

nota: imagens cedidas pela editora.